Cecília-a moradora
Assim que cheguei em Buenos Aires, agosto de 2013, eu fui "morar" num hostel. Muito agradável,por sinal. Fiz amizades. Dividia o quarto com uma senhora que deve ter uns 63 anos.Era tudo tranquilo até vir a confirmação: Ela falava só. Mas,calma, não estou falando assim, desse falar só que você e eu conhecemos, ela gritava, gesticulava e o mais estranho, falava sozinha em voz alta, mesmo quando eu estava no quarto. No início era estranho, porque de madrugada eu acordava com suas risadas, altas e completamente desiguais a uma risada escandalosa.Era um riso forte, engasgado, grave; filme de terror.
Com o passar das semanas, já que fiquei aí por dois meses, fui me interessando por sua história e trocávamos algumas ideias. Ela trabalhava num quiosque de flores, nas madrugadas de sexta para sábado. Tinha uma filha que vivia com o marido em outro bairro. Com o tempo me contava que era artista. Pintava.E assim foi desenhando para mim uma figura doce,apesar do cheiro forte de cigarro e da risada grave.
Como é importante dar-nos conta do recado que o mais inexpressivo encontro tem a nos deixar.Tem uma solidão no outro que nos ensina algo. Algo pra vida toda.
A solidão no outro nos compadece. Nos cumplicia. O outro está só, mas de repente olhamos em nossa volta e vemos que também estamos. A solidão é um tecido inflamável, que pega fogo quando em multidão.Por isso estamos sempre querendo voltar para casa mais cedo, porque às vezes temos medo de incendiar a cidade. E talvez esse medo,seja medo de "estar".
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Buenos Aires, 2013
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