Cartas surdas em tempos de viagem
Terça feira, dia 24, estava em Sobral, uma cidade no interior do Ceará. Histórica e linda. Por ser histórica conserva parte de sua arquitetura colonial e essa característica me atrai muito.
Isso de apreciar o imutável é muito difícil quando se tem,ciclicamente, os pés na estrada. Ou funciona como uma compensação. Você aprecia aquilo que não muda, mas na sua vida você quer um vendaval! "O viajante não para" já diria Saramago. Mas será que algo é realmente tão imutável assim?
Esses lugares nos transportam a outras épocas e naturalmente a nostalgia aplaca nossos pensamentos e nos distanciamos um pouco do presente. No entanto é importante, sim, acordar de manhã cedo com lembranças mudas e saber que esses tempos que ecoam em sonhos e memórias, estão reservados a um único lugar: o passado. E o passado é uma relíquia guardada numa caixinha na curva do coração. Mas assim como as arquiteturas, as lembranças podem ser ressignificadas, ainda que sua estrutura base permanece intacta. Nada está imune às ações do tempo! Não obedecendo às convenções temporais e cronológicas, o coração confunde períodos, refaz experiências e assombra com novas conclusões de fatos passados.E assim seguimos..e assim a viagem se prolonga no acúmulo de novas tentativas e sabores, que por sua vez, se misturam ao que já foi e por que não ao que virá? E assim vamos compondo a linha etérea de nossas vidas, deixando que as memórias nos instigue a revisitar sensações e a redirecionar atenções, tensões, afetos, respeitar mais nossa história e reconstruir nossas casas com o cimento do tempo. O viajante não para nunca de tragar paisagens para dentro de si, fundar reinos e acariciar perdões.
28/10/2017
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