Buenos Aires, uma cidade astrológica
Já relatei aqui no blog que morei em muitos lugares em Buenos Aires e dentre esses locais, incluo duas residências "de chicas".
Na rua Bolívar esquina com Brasil, conheci muitas meninas-mulheres, que assim como eu estavam em uma jornada de (auto) conhecimento. O ano era 2015. Essa foi a casa que mais meninas conheci, vivíamos juntas, creio que 14 garotas, a grande maioria estrangeira, menos Jime. E dela falarei hoje.
Jimena sempre estava na sala, seu computador havia quebrado e portanto ela usava a cpu que ficava na sala. Trocávamos conversas e em comum tínhamos o fato de já termos morado em um mesmo apartamento, também em San Telmo 💖, mas em datas diferentes e queríamos muito voltar a esse lugar. Jime estava buscando emprego. Tínhamos uma amiga em comum, Liz, uma paraguaia com quem eu havia morado 3 meses. As duas estudavam cinema e trabalhavam em várias funções da profissão. Era uma figura muito marcante, cabelos grande, tatuagem de coração que parecia um desenho de uma criança pintado de vermelho.Boca também sempre vermelha e como não podia ser diferente, a velha e boa franja, típica de muitas mulheres de Buenos Aires. O fato é que a vida com 14 mulheres às vezes deixa você tonta...nos dávamos muito bem, mas eu queria mesmo voltar ao lugar que morei em 2014. Um dia, Jimena me avisou que duas meninas iriam sair do apartamento e que ela iria para uma das vagas e assim contactei a dona e também fui. Em abril de 2016 estávamos de volta à av. San Juan esquina con Paseo Colón! 💛. Esse apartamento era menor e menos meninas moravam nele, eu conhecia 3 delas. Jime e eu passamos então a dividir o quarto e aqui começa nossa história. Ela me contava sobre sua vida, sua infância, que sua família tinha vindo de outro estado fazia muito tempo, para se instalar em La Matanza. Geminiana, fã de Rolling Stones, curiosa e todos os dias chegava a mim com uma novidade; um dia era um curso de teatro, outro dia um de tango, depois de encadernação, outra vez expressão corporal e por aí vai. Teve circo também! Uma personalidade extremamente mobilizada, que me despertava muito ânimo. Nessa época eu trabalhava muito no estúdio de dublagem, saía cedo e chegava tarde e nos fins de semana geralmente não dormia em casa.Mas ao retornar sempre estava disposta e interessada em ouví-la, porque sabia que mesmo em um curto espaço de tempo ela já teria muitas novidades. Jime e eu somos amigas até hoje. Passamos 9 meses sob o mesmo teto.Dividimos lágrimas, confidências, mudanças de rota e cervejas. O plano dela agora é ir de viagem sem data de retorno. Jimena desperta em mim esse ânimo bonito pela vida, não falo de uma alegria histérica, mas de uma fome de mundo, muito típica de alguns geminianos (me perdoem os que não acreditam na simbologia dos astros). Transborda a fome de quem tem uma falta dentro de si.Uma falta que nunca será preenchida, mas que não nos aniquila, ao contrário, se torna válvula e motor. É preciso saber animar-se com o mundo, com a vida, com as tristezas, com as esperanças. A falta sempre terá presença em nós, mas Jimena sabe que o mundo é logo ali e já dizia Belchior:
"Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem
E o meu coração selvagem tem essa pressa de viver"
12/09/2017
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