100 dias- Assim seja

"Atravessei milhas e milhas" há 22 dias, cruzando todo o Brasil. De Buenos Aires parti para o RJ, lugar que tanto me encantou e que hoje é apenas uma lembrança bonita, parte importantíssima da minha história. Aí fiz amigos, trabalhos, percorri cidades, paisagens que trago em mim. Depois do Rio, parti para Fortaleza. Eu realmente não poderia ter nascido em outro lugar...começando por esse nome- Fortaleza. Esses dias de reencontros me fazem pensar no tanto que já andei, no tanto que ainda há por andar. Nos caminhos que desviei para viver uma ou outra aventura e um amor. Na verdade foram poucas as vezes que desviei a rota e apenas uma vez a desviaram por mim. Mas os desvios e os erros são como idas e vindas de uma mesma estrada. É uma boa metáfora para a vida.Se pensarmos bem, podemos voltar e percorrer tudo de novo, porque todos os momentos foram vividos de dentro pra fora, foi vivido porque no momento de vivê-los expressávamos o que havia dentro, o que estava intenso e pulsante. É preciso compreender que as paisagens estão em nós, assim como o amor e todos os outros sentimentos, que nos geram saudade de algum momento dessa viagem-vida. A beleza dos momentos está dentro de quem os viveu e exatamente por isso é que devemos respeito por nós mesmos e por nossa história. Por isso não há que temer seguir caminhos novos, com passos antigos,já que na volta do desvio, sempre escapa algo do olhar..uma pedra, uma nova flor que não estava e agora está e então, novamente, poderemos expressar o amor que trazemos dentro... Estou lendo um livro do Saramago e não posso deixar de citá-lo:

"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.Assim é. Assim seja."
ASSIM SEJA. ASSIM SEJA.


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