A mulher dos escombros
Eu sempre costumo anotar meus sonhos. Eu queria inventar um sonho assim:
A primeira vez que me desfiz de mim, os ratos entraram na minha casa, por todos os lados, levaram minha avó e ela nunca mais retornou.
A segunda vez que me desfiz, um palhaço tocou sua corneta tão forte que perdi meus sentidos e só me recompus anos depois.
A terceira vez que me desfiz, uma mulher, com muitos dentes na boca, atravessou meu caminho com seu jeito de fada e corpo de Vênus desajeitada. Ela mudou minha rota e depois arrancou os trilhos que eu caminhava, fez o seu novo caminho e se foi sem olhar pra trás.
Agora, me recompondo igual às outras vezes, enxergo o infinito e o sonho mais bonito. Sou aquela que entra na demolição, a que peca por excesso, a mulher matinal que conta as lágrimas e ressurge em sonhos alheios. A minha alma vaga por muitas terras e cada pedacinho de história é também uma nova possibilidade, um novo dia, um outro amanhecer.
E a estrada vai de novo se desenhando e de novo tenho flores por todo o corpo.
E a estrada vai de novo se desenhando e de novo tenho flores por todo o corpo.

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