90 dias

Faz 90 dias que iniciei uma descida profunda rumo a mim mesma. Primeiramente a motivação foi afetiva e com isso vieram várias mobilizações ruins; culpa, arrependimento, rejeição, sentimento de incompletude, desespero. 
Diria que nessas horas não há outra maneira que não seja chorar. Os primeiros 30 dias foram absolutamente dolorosos. É interessante o movimento que se forma dentro da gente, quando o corpo racional e o emotivo se desencontram. Contei com uma vontade enorme de não me desfazer de mim mesma e fiz um esforço, desproporcional, para não desabar e conseguir ver o amanhecer que ainda viria. 
Qualquer que seja a relação afetiva, quando ela é transformada em outra coisa, que já não interessa às partes envolvidas,(ou a uma das partes) é um momento doloroso. Exige escuta. O corpo parece que não acompanha o movimento racional que diz "você deve seguir". Nem vou me debruçar sobre isso porque muito já foi dito, escrito, cantando e feito sobre esse tema indesejado. 
Passados os dias que se desmoronam nas nossas cabeças, vem um desejo munido da força, que apenas o tempo é capaz de oferecer a esse corpo debilitado, que insiste em permanecer atento. 
Uma dor é sempre um inconveniente, um buraco que dá vasão à falta, mas também a falta é combustível que move. É preciso coragem e vontade para  imaginar-se olhando pro mar com um sorriso no rosto e olhos fechados sentindo a brisa salgada. O único deus possível é a mudança. O desejo do aprendizado e de continuar com as portas e janelas do corpo abertas para a vida que ainda há de vir, para a vida que não foi, mas que pode se tornar, é o grande motor. O corpo vivente é também um corpo dolorido, que sofre, e é ele que nos leva adiante. Nessa minha jornada, foi fundamental o entendimento do meu corpo, a conexão com ele, a sabedoria proporcionada pelas caminhadas matinais, pelo choro sentido, pela respiração tranquila depois do grito. Foi o meu corpo que me trouxe até aqui. Ele tem se transformado fisicamente, porque emocionalmente e mentalmente também se transformou. 
São apenas os primeiros 90 dias de uma jornada, uma pequena viagem amorosa e dolorida, proporcionada pelo desejo de auto-perdão e do entendimento de que também plantei primaveras, apesar de.
Cair em um poço profundo e com água turva, é uma das sensações mais desagradáveis que um ser pode ser submetido. Sair dele é a prova mais bonita que a vida nos oferece.
Fortaleza, 26 de Julho de 2017

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